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A DIFÍCIL REFORMA DA SAÚDE NOS ESTADOS UNIDOS  
   
 

No governo do presidente Bill Clinton, o tema da saúde foi palco de intermináveis polêmicas nos Estados Unidos. Bastou Barack Obama assumir a presidência e tentar cumprir com uma de suas promessas de campanha, que a polêmica novamente se instalou. Mas, como entender a recente retomada e por que é palco de tanta polêmica?
Entender porque a saúde novamente está sendo discutida nos Estados Unidos pelo governo Obama indica uma realidade concreta: a saúde nos Estados Unidos não vai bem. Esse fato é confirmado pelos números oficiais que indicam que quase cinquenta milhões de norte-americanos estão desassistidos pelos Planos Privados de Saúde. Esse contexto, tão bem retratado pelo cineasta Michel Moore no filme Sicko, causa estranheza aos olhos do mundo que não entendem como a economia mais rica do planeta pode negar o direito fundamental à saúde a parcela tão grande de pessoas.
Em 1993, a ex-primeira dama Hillary Clinton propôs como solução do problema a construção de um sistema universal aos moldes do SUS no Brasil (onde a saúde fosse concebida como direito de todos e dever do Estado). Pouco tempo depois, após a proposta ganhar a arena pública, e se espalhar o medo de um modelo de medicina social-coletivista, que soa estranho no país, articulado às negociatas vergonhosas no Congresso, enterraram rapidamente o projeto.
Tão logo o presidente Barack Obama assumiu a Casa Branca, propôs novamente um sistema público universal de saúde, seguindo a mesma justificativa de Hillary Clinton. Como ainda nos encontramos no auge do debate nos Estados Unidos, não tivemos ainda o desenrolar de todos os capítulos. No entanto, embora a política seja o espaço da imprevisibilidade, arriscaria a dizer que temos indicativos que sinalizam a repetição dos capítulos anteriores.
A explicação está na força das grandes companhias de saúde privada do país. No entanto, para entender a dificuldade de construir modelos universais nos Estados Unidos, penso ser importante atentar para um elemento de natureza cultural do país, acionado reiteradamente pelas companhias, ou seja, o individualismo.
O individualismo, presente na memória inconsciente do povo, funda e estrutura a cultura norte-americana. “Sou” e “estou” somente enquanto indivíduo. A saúde, como outros direitos sociais, é de responsabilidade de cada um e, portanto, o Estado não deve ter o papel de garanti-la enquanto política pública para todos. Implícito ao discurso da desobrigação do Estado em garantir os direitos sociais, esconde-se uma ausência dos princípios da solidariedade e da responsabilidade, típico do liberalismo moderno. Choca-se, portanto, frontalmente com os sistemas públicos universais que pressupõem um esforço das pessoas em resolverem suas necessidades de forma coletiva, onde o problema do outro também me diz respeito.
Logo, não é difícil entender a dificuldade da reforma da saúde nos Estados Unidos rumo a construção de sistemas públicos universais. Embora diferentes dados mostrem que eles são mais baratos, eficientes e justos, propor tal proposta num contexto cultural marcado pelo individualismo, é muito difícil.




* Mestre em filosofia, Diretor Geral do CEAP e professor do IFIBE em Passo Fundo.
   
  VALDEVIR BOTH*

 

 

 

 

 

 

 
   
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